sexta-feira, 9 de abril de 2010

Moderação

Primeira tragada. Rudy enche os pulmões, e a sobrinha, Zoe, observa, imaginando a fumaça passar por cada pedacinho do seu corpo até chegar no pulmão acabado e preto. Caindo aos pedaços.
Rudy decidiu ir pra casa da sobrinha, porque não tinha pra onde ir. E mesmo se tivesse, ainda queria ir pra lá, onde havia uma paz, um pouco difícil de descrever. Era tão bonito, sentia inveja de tudo e todos daquela casa. Era como se o tempo inteiro alguém estivesse cantando. Ele até podia ouvir Chico Buarque, como plano de fundo daquela casa tranquila e feliz.
Segunda tragada e Zoe, que detesta cigarro, pensa em pedir para o tio parar. Mas ele deve? Talvez ele precise, pensa, e deixa pra lá. Tinha vontade de dizer tantas coisas, mas talvez ele nem se lembrasse, então, esqueceu.
Rudy não quer pensar. Perdeu as contas de quantas garrafas tinham acabado naquele mês, e quantas caixas de cigarro. O vício voltou. Tudo por uma mulherzinha da puta. E ele, que era tão macho, desistiu de tudo, e deixava ela machucar seu corpo e alma. Logo ele, que já havia brigado e batido em tantas! Desistindo por uma mulherzinha que detestava suas outras mulheres... mãe, tia, amigas. Deixou até de ir pra igreja. E como era capaz da mulher sentir ciumes da sua sobrinha? Olhou pra ela, e quis que ela nunca passasse por isso. Ela era bonita, mas tão magra... parecia frágil.
Zoe aproximou-se, meio sem querer querendo. Ela ia beijar o tio, na bochecha esquerda. E ele virou. Talvez por causa do cigarro. Zoe não ligava, e insistiu, dando um beijo mole de lado. Rudy ficou meio incomodado, há quanto tempo alguém não lhe beijava? E há quanto tempo alguém não lhe beijava enquanto estava fumando? Amou a sobrinha.
Quis conversar, falou de sua magreza e de seu futuro. Zoe deixou o incosciente responder e disse "Não pretendo", pra pergunta "O que pretende fazer?". O tio logo imaginou ele na idade dela... o que pretendia? Ela o surpreendestes, mas com medo do tio não gostar, tentou consertar "Aliás, por agora... sabe. Não sei o que pretendo". E Rudy entendeu. Entendeu tudo, porque ela era ele quando era assim. Mas não queria admitir, não podia ser, sua sobrinha adorável. Não queria isso pra ela. Aconselhou e mostrou o que combinava. Zoe gostava da capacidade dele de ler pessoas.
Nenhum dos dois eram muito de falar, então, ficaram em silêncio por um tempo, preenchendo os espaços grandes de silêncio com algumas conversas bobas. Nenhum dos dois ligavam pra elas, mas precisavam conversar. Não tinham muita intimidade, apesar de se conhecerem um pouco.
Terceira, quarta, quinta, sexta tragada. Zoe mexe no cabelo e o tio acha que está incomodando... não se sente a vontade, e quer levantar. A sobrinha, não gosta do cigarro, mesmo, mas gosta do tio. Então, mente. "Fica, eu não me importo... amanhã eu lavo". O tio fica, quem pede ele pra ficar?
Sétima, oitava tragada, um gole de cerveja, três goles de cerveja, última tragada. Zoe fica aliviada e o tio queria tanto uma Vodka... começa a pensar no que fez pra merecer isso. Fez tantas coisas, mas não queria pensar. "Me dá uma Vodka?" Que pecado, imagina. Pedir uma Vodka pra um ser tão puro.
Mas, mas, mas... e Zoe procurava desesperadamente palavras. Não podia dar nada pro tio. "É melhor você não beber mais". O tio não teria coragem de replicar com a menina. "Então, seu cabelo vai feder", e riu do que disse. Talvez a menina não ligasse mesmo. E mais alguns cigarros foram embora.
A menina, queria ajudar o tio, mas não sabia o que dizer... queria que estivesse ajudando, só estando ali. Rudy evitava os pensamentos, e gostava da sensação que o cigarro e todas as bebidas alcoolicas imagináveis lhe traziam.
Zoe olhava pra Rudy, e ele não queria ser olhado. Pensou o quanto era bom em Matemática, com quantas mulheres já tinha ficado, quantas coisas já tinha perdido, estava se perdendo. Ele só tinhaa a sobrinha, agora. Expulsou amigos e família da vida. E agora estava fugindo de uma mera putinha, por covardia, egoísmo. Sentiu vergonha de si próprio. Será que a sobrinha o escutava pensando? Ele pensava tão alto...
Queria Vodka. Muita. Mesmo. E a menina queria gritar, pra ele parar. Agora, estavam todos incomodados. A menina se remexia na cadeira e ele bebia mais rápido. E de repente acabou. Acabou o cigarro, e a bebida. E a conversa, e a música. Acabou tudo. E a menina saiu, aos poucos, à francesa... Não suportava mais aquilo. E o tio olhou, chorou e ficou.
No dia seguinte, restaram as cinzas que a menina logo correu pra fotografar. Nos pensamentos de Rudy, só ficou tristeza, solidão e arrependimento. Principais sintomas de muitas manhãs.
Zoe também se arrependeu, nunca dizia o que queria. Nunca. E agora, o tio estava como sempre, e voltaria qualquer dia, quando ficasse insuportável na sua casa, de novo. E ela ia esperar, ansiosamente, com as palavras cravadas no coração.
Só mais umas cinzas. E o vento levaria tudo embora, como sempre faz. O vento sempre leva tudo embora. Rudy amava ventos. Zoe também.